Na verdade, a temática da «cidadania» desenha uma como pantalha onde se projectam com maior ou menor rigor no reflexo – muito em particular, desde a modernidade – as figuras políticas historicamente determinadas da con-vivência (real ou idealizada) das comunidades humanas.

Ainda nos dias de hoje, a «cidadania» pode ser por alguns sectores brandida como o expedito estandarte para a incorporação desvirtuada do descontentamento, da resistência e da luta, a uma sopa diluente das diferenças, onde por mistificação pseudo-axiológica todos passam a disfrutar de um aparente estatuto de «igualdade» abstracta.

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Pela minha parte, e neste registo, limito-me a salientar que a «cidadania» recobre e reflecte a pertença activa à vida da «cidade». A compreensão e a extensão do conceito de «cidadania» devêm, por isso, desde logo – não apenas na doutrinação política, mas também na prática – terreno de confrontação, de luta, mas igualmente de construção. Acresce a tudo isto ainda uma peculiar dimensão re-flexiva.

A «cidadania» não se restringe à mera positividade, formalmente proclamada ou materialmente reconhecida. Requer e empenha um constitutivo trabalho real de efectivação. É por isso que a conjunção e a conjugação da «cidadania» com o tema da «cultura» ganha contornos promissores de sentido a concretizar.

A «cultura» – mesmo se magnificada em fervorosas tiradas de entusiasmo devoto – pode aparecer para alguns como mera diletância ornamental. É uma como estética de indumentária que ajuda a compor a figura do, na conversação em sociedade, aparente conhecedor de muitas coisas – tanto mais fúteis e evasivas quanto, uma vez aprofundadas e a provação sujeitas, se verifica dissiparem-se na sua promessa de consolidada sabença. Múltiplas são, na verdade e no que a este tópico diz respeito, as instâncias e encarnações do famigerado paradigma do «gato maltês» que tantas donzelas oitocentistas (e novecentistas) assombrou e afligiu, quando as levou a percutir pianos e a arranhar o francês.

Confesso que nunca consigo livrar-me, em ocasiões este jaez, de aproximar esta vivência da «cultura» a uma camada estaladiça de verniz cuidadosamente disposta sobre unhas que de antemão dispensaram a comezinha higiene do sabão e da escova.

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