Gostaria de começar esta despretensiosa narrativa um bocadinho antes do próprio nascimento do Islão, precisamente em 529 ano em  que  os  cristãos  encerram  a  Academia  de Platão.  Como resultante deste funesto acontecimento na história da filosofia os filósofos pagãos, mormente platónicos, iniciaram um profícuo êxodo para o Oriente. Será graças a este primeiro movimento geográfico para leste – de  passagem  lembremos  que  Coimbra  está associada ao segundo movimento oriental da filosofia, mais longínquo porque atinge a própria China 3 – que iremos encontrar a memória de alguns textos da filosofia grega em regiões como a Pérsia,  a  Mesopotâmia,  a  Síria  (além,  é  claro,  do  Egipto),  lidos  e  traduzidos  para  sírio  e  para persa,  conjuntamente  por  pagãos  e  cristãos  (mormente  nestorianos  e  jacobitas),  em  cidades que convém passar a incluir numa geografia da filosofia como Nísibis, Harran ou Gundisapur 4. A outra cidade – decerto a mais importante para nesta história – é Bagdad, a martirizada capital do  actual  Iraque,  onde  uma  denominada  “escola  de  tradutores”,  sob  o  mecenato  do  apogeu cultural  abácida,  concita  o  esforço  de intelectuais  cristãos  e  islâmicos  em  torno  dos  textos  de Aristóteles. Este operação de tradução de textos filosóficos será mais curta do que a história de Aristutalis.  Perdurará  apenas  por  trezentos  anos  –  entre  o  final  do  século  VIII  e  meados  do século  XI  –  mas  se  ela  não  tivesse  sucedido  teria  sido  muito  diferente  a  própria  história  da filosofia latina de cuja translação arábica somos herdeiros directos.

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Perguntar-se-á  “porquê  Aristóteles”?  Certamente  que  ele  não  foi  o  único  autor  grego traduzido. Como se indicou, logo numa primeira fase, também textos na área da matemática, da química, da   medicina,   da   astronomia   ou   da   óptica   eram   compreensível,   primeira   e oportunamente  traduzidos.  Contudo,  por  um  lado,  as escolas  tinham  o  costume  de  produzir comentários,  obviamente  também  filosóficos,  muitas vezes  obras  que  se  acrescentavam editorialmente  umas  às  outras,  provindas  das  mãos  dos  mais  variados  exegetas;  o  majestoso comentador  Simplício,  por  exemplo,  foi  um  dos  que  demandou  a  Pérsia  na  sequência  do deletério acontecimento de 529. Por outro lado, e mais importante ainda, por uma necessidade intestina à própria religião islâmica. Curiosamente, e tal como acontecerá no Ocidente latino, o nome  ou  mais  propriamente  a  obra  de  Aristóteles  está  intimamente  ligada  aos  projectos epistemológicos  de  cientificação  (isto  é,  da  consolidação  racional)  da  teologia.  Talvez  nos  seja mais familiar o esforço de Tomás de Aquino no século XIII em Paris, mas convém ter presente que um empenho semelhante tinha sido levado a cabo logo no século VIII a partir de Bagdad. Tratava-se,  no  caso  islâmico,  e  em  particular  do  jovem  estado  abácida,  de  enfrentar  o aristocratismo cultural persa – que deu origem ao xiismo – fonte, primeiro, da teologia islâmica propriamente  dita  –  o  denominado kalam,  vocábulo  também  equivalente  ao  grego logos – e, depois (em Bassorá), do mutazilismo, movimento que procurará atacar quem agredia a religião com  as  armas  dos  próprios  hereges  atacantes  (da zandaq),  i.e.  com  recurso  à  razão  e  à dialéctica. Neste esforço titânico destacou-se ainda em Bagdad a chamada “Casa da Sabedoria” (830)que albergou uma plêiade de tradutores cada vez mais rigorosos, proficientes em grego, siríaco,  persa  e  naturalmente  árabe.

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