A  associação  entre  os  conceitos  de  «guerra»  e  de  «justiça»  ressoa,  aos  ouvidos  dos menos familiarizados com a problemática da guerra justa, quase sempre como um arrazoado militarista, como um exercício intelectual de legitimação e de glorificação da guerra. Embora esse entendimento esteja errado, a verdade é que o ónus da prova recai essencialmente sobre aqueles que defendem que a guerra pode, por vezes, ser justa. Ou seja, para que a expressão «guerra  justa»  não  se  afigure  a  um  contra-senso  é  fundamental  que  a  guerra  possua  uma «realidade moral», isto é, que sobre ela se possa tecer uma argumentação moral. Para Michael Walzer, um dos mais destacados teóricos da guerra justa e autor do celebrado Just and Unjust Wars,  este  tipo  de  argumentação  não  só  é  possível  como é  insofismável,  já  que  os  nossos discursos  reiterados  sobre  a  guerra  estão  repletos de  vocabulário  moral  perene,  tal  como «agressão», «crueldade», «represália» ou «massacre», todo ele contendo forte conteúdo moral e permitindo juízos morais partilhados. A própria condenação e a necessidade de justificar a guerra  são  provas  evidentes  da  sua  «realidade  moral».

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Assim, a reflexão sobre a natureza e os limites morais da guerra e do terrorismo, a ponderação sobre o «que significa forçar as pessoas a combater», constitui, hoje, um desafio fundamental para as sociedades democráticas.

De facto, a tradição da guerra justa admite que algumas guerras podem ser justas e até mesmo uma obrigação moral. A vantagem e a utilidade da teoria da guerra justa reside no fornecimento de instrumentos conceptuais, de princípios de crítica  moral,  que  permitem  distinguir  uma guerra  injusta,  equivalente  a  um  crime,  de  uma guerra moralmente tolerável, em proporcionar critérios que fundamentam as opções políticas e os juízos particulares sobre as guerras e sobre as acções de combate, que são, idealmente, independentes de doutrinas políticas e/ou de interesses ideológicos e estatais. Segundo Walzer, não  faz  sentido  atribuir  justiça  às  guerras  do  passado  e  considerar  que  os  conflitos  da actualidade são necessariamente injustos, como se as lutas políticas da actualidade, a vida e a liberdade dos contemporâneos fossem inferiores em dignidade às dos seus antepassados.

De  facto,  Walzer  fala  mesmo  no  triunfo  da  teoria  da guerra  justa  após  a  guerra  do Vietname,  altura  em  que  «a  justiça  se  tornou  uma  necessidade  militar»,  altura  em  que  os opositores da guerra, entre eles o próprio Walzer, sentiram a inevitabilidade de fundamentar a contestação  a  um  conflito  que  acreditavam  ser  manifestamente  injusto  nos  conceitos  e  nas regras da guerra justa. Contrariamente às acusações de que muitas vezes é vítima, a teoria da guerra  justa  proporciona-nos  as  armas  mais  eficazes  para  avaliar  as  guerras  da contemporaneidade  e  combater  a  injustiça da e na guerra.

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