Começo  este  conjunto  de  reflexões  sobre  “Identidade(s)  e  multiculturalismo”1 colocando-me sob a inspiração de um dos autores que nos tem oferecido um dos melhores exemplos de mestiçagem literária na ficção escrita em língua portuguesa. Faço-o não apenas pela beleza do texto escolhido, mas, sobretudo, pelo seu significado filosófico e antropológico. Refiro-me ao escritor moçambicano Mia Couto e, neste caso concreto, ao seu primeiro livro Vozes Anoitecidas. Um dos contos, intitulado “Afinal Carlota Gentina não chegou de voar?”, que nos fala das suspeitas de um homem que não sabia se a sua companheira era mulher, ave ou as duas  coisas,  começa  com  estas  palavras:  “Eu  somos  tristes.  Não  me  engano,  digo  bem.  Ou talvez:  nós  sou  triste?  Porque  dentro  de  mim  não  sou  sozinho.  Sou  muitos.  E  esses  todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências.”

Assim escreve Mia Couto, descrevendo, com estas palavras, a situação do homem africano na percepção  que  tem  da  sua  identidade:  “mulato,  não  de  raças,  mas  de  existências”.  Mas, “mulatos, não de raças mas de existências” é também o que todos nós somos na aventura do ser e do tempo em que vivemos.

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O  mundo  que  hoje  percorremos  e  habitamos  proporciona-nos  uma  vivência contraditória da familiaridade e do estranhamento que temos ou não temos com as coisas, as pessoas, as culturas e o seu acontecimento plural no mundo e na história. Ao mesmo tempo  que as distâncias se anulam pelas vias electrónicas da comunicação, tornando vizinhos os que tão  longe  habitam  nesta  aldeia  global,  apagam-se  as  referências  doadoras  de  sentido,  que permitiam outrora desenhar os mapas da nossa orientação e reconhecer no céu infinito estrelas privilegiadas como guias da nossa caminhada. Assim, se a aldeia facilita o (re) conhecimento, a multiplicação ao infinito das estradas, das ruas e das ágoras potencia o desconhecimento e se a globalização  parece  homogeneizar,  tal  homogeneização  impede  a  percepção  diferenciada  da singularidade  inalienável  do  outro  e  dos  outros,  sem  a  qual  é  impossível  o  diálogo,  que pressupõe  sempre  a  relação  entre  dois  seres  em  comunicação  mas  irredutíveis  na  sua alteridade. Significa isto que a metáfora de Babel, com que se quis dizer, por um lado, a ambição dos homens, mas, por outro, o seu desencontro, adquire hoje uma dialecticidade interna que a complexifica  e  nos  faz  pensar  pela  densidade  da  sua  actual  reescrita:  pode  dizer-se  que, finalmente,  a  “torre”  parece  ter  sido  construída,  não  numa  direcção  vertical  e  num  sentido transcendente,  para  proporcionar  o  acesso  dos  homens  a  Deus,  mas  sim  numa  direcção horizontal e num sentido imanente, para universalizar e tornar mais rápida a comunicação dos homens entre si.

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