Acreditando na capacidade de cada homem poder agir em liberdade, mais, de cada homem ser em si próprio um novo começo apenas pelo facto de, através do nascimento, tomar parte num mundo que já existia antes dele e que vai continuar a existir depois dele, Arendt considera estar perante um autêntico “milagre”, no sentido de cada nascimento possibilitar o impossível, ou seja, de enquanto os homens puderem agir serem capazes de fazer o improvável e o incalculável desde que não lhes seja coartada a liberdade ou reprimida a espontaneidade. Em síntese, a política baseia-se na pluralidade dos homens e trata da convivência entre diferentes.

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Deixemos esta linha de pensamento e retomemos a análise que Hannah Arendt nos proporciona do conceito de política, ainda com base no estudo da Antiga Grécia. Explicando que, para os gregos o espaço público-político é a “coisa comum (koinon)”, espaço físico onde todos se reúnem, mas também espaço mental, de comunhão de interesses, âmbito onde todas as coisas se podem revelar em toda sua universalidade, Arendt revela, como importante atributo da política, fundado na imparcialidade do poeta Homero, a capacidade de ver as coisas de diferentes perspetivas, numa visão caleidoscópica que integra as muitas posições possíveis face à realidade e que permite a introdução de um conceito aristotélico que o mundo moderno quase esqueceu – o conceito de phronesis (compreensão) – aquela compreensão que o homem político deve assumir e que se traduz na capacidade de ter presente uma visão abrangente da realidade, compondo essa visão abrangente a partir de todos os possíveis pontos de vista e posições que permitem a análise de um aspeto, uma situação ou um problema. Através dos séculos quase não se falou dessa phronesis, que em Aristóteles é a verdadeira virtude cardinal da coisa política.7 Mas é importante ter presente que uma coisa só pode mostrar-se sob muitos aspetos quando muitos estão presentes pois só assim ela aparece em projeções diferentes. Nesta linha de pensamento, a conhecida asserção de que nenhum homem é uma ilha poderia ser complementada com a ideia de que um homem só não pode ser livre na medida em que a liberdade da coisa política dependia, por completo, da presença e da igualdade de direitos de muitos.

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