A recorrente invocação da Ética nos debates actuais na esfera pública pode aparecer como um último recurso para estabelecer uma derradeira instância de justificação de atitudes e de aferição de razões de admissibilidade de condutas, no contexto de uma experiência difusa de desintegração, de uma fragilização extrema dos argumentos, de uma vulnerabilidade essencial das convicções. A perplexidade crescente, porém, afecta a própria posição da exigência ética. “Tudo é nevoeiro “ é uma imagem apropriada para circunscrever o presente estado de indefinição no domínio das motivações da acção, como expressivamente Fernando Pessoa lhe deu voz na Mensagem:

Ninguém sabe que coisa quer

Ninguém conhece que alma tem

Nem o que é mal nem o que é bem [ … ]

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro

Para ler todo o texto faça download do pdf.

A fundamentação da Ética ou de legitimação das normas consiste num princípio de universalização dos interesses, pela obrigação da mediação dos interesses de todos os possíveis afectados, nas condições-marco da situação histórica, mas sem preconceber a existência, conteúdo e justificação de interesses determinados: seria constituinte a referência como que a um interesse a priori puro, um como que factum primitivo (Apel). Habermas situa-se mais decididamente numa tipologia dos interesses, distribuídos em técnicos, estratégicos e de emancipação, mas neste o que está verdadeiramente em causa é a constituição da identidade, de uma identidade em referência ao outro ( Einbeziehung ), não a inclusão, a assimilação, mas o contar com, menos na dimensão ética da posição pessoal e mais na dimensão política do mundo da vida social: “como é que os seres humanos, sob as condições objectivas de um sempre crescente potencial técnico, podem e querem viver uns com os outros” ( Technik und Wissenschaft, pp. 113/114 ).

Razão técnica e agir instrumental (ciências empírico-analíticas) – razão hermenêutica e agir estratégico (ciências histórico-hermenêuticas)– razão comunicativa e interacção simbolicamente mediada (ciências críticas), cujos fins são: a emancipação, a individuação, a extensão da comunicação não distorcida e livre de domínio, numa palavra, a vida boa, a vida conseguida (gelungenes Leben) na faculdade de auto-reflexão, síntese de conhecimento e de interesse (Op. cit. 162-164).

O interesse ético é aqui uma tomada de posição numa situação pessoal e histórica quanto à ordem de fins, a geratriz de uma topologia que nos confronta de modo crítico com a pergunta: que interesses servimos ou, na máxima generalidade: que queremos poder? E com que finalidade? Como instalar o interesse incondicional pela autenticidade da comunicação nos interesses sempre condicionados da facticidade, da historicidade e da contingência? Será esta tensão nunca resolvida no pensamento de Habermas entre a exigência de uma instância incondicional de legitimação do fáctico e a ausência de uma fundamentação última e a fragilidade da fundação pragmático transcendental da moral que o encaminha para o primado do Direito como ideia reguladora da convivência humana.

ASSOCIAÇÃO DE PROFESSORES DE FILOSOFIA

A Associação de Professores de Filosofia (Apf) é uma associação de professores ligados ao ensino da Filosofia, que se dedica a divulgação e promoção de temas relacionados com a filosofia.

CONHEÇA AS VANTAGENS DOS SÓCIOS APF

Porque a Filosofia interessa a um número cada vez mais alargado de pessoas, podem ser sócios da Apf todos os que se interessarem pela reflexão filosófica e pelo ensino da Filosofia.

PUBLICAÇÕES APF

Constituídas essencialmente pelas comunicações apresentadas em eventos científicos, as publicações da Apf congregam aspetos relevantes do pensamento filosófico português.

RECURSOS FILOSÓFICOS

Aqui poderá encontrar recursos de apoio a reflexão filosófica e ao ensino da Filosofia (Páginas Institucionais e Pessoais; Livros e Artigos; Revistas; Dicionários; e Conceitos Filosóficos).