Se, ao  examinar  as  concessões  públicas  de  telecomunicação,  não  mencionarmos  as estações radiofônicas, constataremos que, entre televisões estatais, comerciais, gratuitas e a cabo,  operam  hoje,  no  Brasil,  por  volta  de  uns  oitenta  canais.  Destes,  uma  boa  dezena  é religiosa. Nos meados dos anos 1980, a presença avassaladora do protestantismo evangélico nas grandes cidades brasileiras suscitou uma resposta do proselitismo católico, que, praticado desde os anos 1970 por meio dos Cursilhos da Cristandade e dos Encontros de Casais e de Jovens com Cristo, passou à ofensiva com a “igreja carismática”. Por isso, os canais religiosos se dividem majoritariamente  entre  evangélicos  e  carismáticos, com  programação  variada  que  vai  de telecultos,  telecursos  de  exegese  bíblica  e  teleconselhos  até  testemunhos  de  conversão  e publicidade para a venda de materiais religiosos, entremeada com apresentações de canto e dança,  além  de  vídeos  edificantes.  Nas  grandes  cidades  brasileiras,  templos  evangélicos espalham-se  por  toda  parte,  ocupando  lugares  que  anteriormente  pertenciam  a  cinemas, teatros,  fábricas  e  galerias  comerciais.  Em  contrapartida,  estádios  de  futebol  são periodicamente  transformados  em  catedrais  para  pregações,  cânticos  e  possessões carismáticas.  Aos  domingos,  militantes  religiosos  distribuem  panfletos  e  santinhos  nos semáforos e batem às portas das casas com o oferecimento de explicações da Bíblia.

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Visto que as religiões instituem culturas de massa – são um fenômeno que perpassa e atravessa  as  sociedades  por  inteiro  —  e  do  espetáculo  –  não  podem  prescindir  de  rituais  e cerimônias –, não nos deve surpreender que, mundo a fora, elas tenham facilmente se sentido em  seu  elemento  e  em  conformidade  com  os  ares  do  tempo  quando  do  surgimento  da sociedade de massa e da indústria cultural. E, todavia, nos surpreendemos. Nossa surpresa não vem tanto dessa presença das religiões nos meios de comunicação ou de sua visibilidade nas praças e nas ruas, de seus signos nos trajes, nos hábitos e nos gestos, e  sim  da  força  do  apelo  religioso  para,  nos  dias  de  hoje,  mobilizar  política  e  militarmente milhões de pessoas em todo o planeta. Que, nos estertores da Guerra Fria, Ronald Reagan tenha realizado uma corrida armamentista sem precedentes sob a alegação de preparar o “mundo livre” para a vitória na batalha cósmica do Armagedon, ou que os massacres de Sabra e Chatila, a guerra civil em Ulster e Belfast, em Beirute, Teerã e Kabul, os nacionalismos balcânicos em luta e praticando genocídio em Sarajevo e Kossovo, a guerra em Gaza, Jerusalém e Bagdá apareçam sob a imagem de lutas religiosas, culminando em atentados suicidas como atos de sacrifício de si e de inocentes, em nome de Deus, nos leva a indagar se (e em caso afirmativo, por que) a cultura política contemporânea dominante está efetivamente fundada em valores religiosos. Em outras palavras, nunca houve na história guerra de religião e ninguém pode atribuir os conflitos contemporâneos a causas religiosas – suas causas são econômicas, sociais e políticas – e, no entanto,  eles  se  expressam  por  meio  dos  símbolos  religiosos.  É  isso,  exatamente,  que surpreende.

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