Quando comecei este trabalho estava longe de perceber as suas implicações na esfera pessoal. Vegetariana convicta há muitos anos, acreditava que da obtenção de outros produtos de origem animal — por exemplo, leite ou ovos -, desde que de origem biológica, não adviria qualquer sofrimento. Baseava-me, talvez, em relatos familiares de convivência com outros animais, de experiências pessoais… Realmente quando acompanhei na infância uma amiga a pastar um rebanho de cabras nada vi de mau… Elas estavam todo o dia na serra, onde se alimentavam livremente, limpando os matos, as crias podiam mamar quando quisessem e não eram, em nenhum momento, violentadas. À noite abrigavam-se nos currais situados debaixo das casas, aquecendo-se e aquecendo as famílias, muitas vezes demasiado pobres para outras opções. Só muito mais tarde me apercebi que, para comer carne, animais como estes teriam de sofrer e morrer. Não conseguia viver com isso. Mas durante muito tempo consegui conviver pacificamente com outras utilizações dos animais não humanos por parte dos animais humanos. Agora tenho dúvidas.

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Rejeitado o especismo, assumida a igualdade entre todos os seres sencientes e com ela a obrigação de uma idêntica consideração de interesses, não bastará maximizar o não sofrimento, teremos que “admitir que seres que são semelhantes em todos os aspetos relevantes têm um direito semelhante à vida”ii. “Seres semelhantes…”; Peter Singer não considera todos os seres sencientes iguais, mas a diferença não resulta da espécie. Pelo contrário… “Enquanto a autoconsciência, a capacidade de pensar em termos de futuro e ter aspirações, a capacidade de estabelecer relações significativas com os outros, não são relevantes para a questão da inflição de dor (…) estas capacidades são relevantes para a questão da morte.”iii Para Peter Singer, quando se trata de escolher entre um ser com autoconsciência, capaz de se projetar no futuro,…, e um ser que carece destas capacidades, a escolha é clara: terá mais valor a vida de um ser com as capacidades referidas, independentemente da sua espécie. Por mais controverso que possa parecer, no âmbito da ética utilitarista de Peter Singer, há coerência em tal afirmação. Defender a superioridade de todos os seres humanos seria mergulhar novamente no especismo. Mas não será cada vida, humana ou não, única, irrepetível e inviolável?

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